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O Independente A máquina de triturar políticos

Marcelo: toda a verdade sobre a direita, a esquerda e a direita da direita e a esquerda da direita

Que Marcelo Rebelo de Sousa se apresente nos dias que correm como "a esquerda da direita", ou à esquerda da direita da esquerda, é lá com ele. Nós, como diria a personagem do Herman, é mais bolos: podemos não estar a par das coordenadas exatas do professor nos dias que correm, mas sabemos qualquer coisinha sobre onde ele estava no final dos anos 80 e início dos 90's, quando Marcelo era um dos gurus das tropelias d'O Independente.

Até escrevemos bastante sobre isso no livro "O Independente - A Máquina de Triturar Políticos". Sim, não é por acaso que o professor lá está na capa, com a sua impagável barbicha dos eighties. E uma coisa é certa, por mais voltas que Marcelo queira dar à sua biografia, nesses tempos em que Cavaco mandava no país com uma agenda que Paulo Portas rotulava, sem apelo nem agravo, como sendo de esquerda, Marcelo estava do outro lado.

No outro dia, o José Manuel Mestre, da SIC, bem tentou confrontar o candidato Marcelo com esse seu passado, mas o candidato sabe muito e desviou para canto. Ora, vejam:

 

 

Então vamos a factos. Entre outras coisas, escrevemos isto no capítulo "Os Laranjinhas":

"O diretor‑adjunto [d'O Independente Paulo Portas], que não gostava dos «laranjinhas», não desgostava dos «laranjinhas» todos por igual. Não escondia a simpatia pelos que haviam de ser rotulados, anos depois, como «sulistas, elitistas e liberais». Concentravam‑‑se na distrital de Lisboa, que resistia à hegemonia cavaquista como a aldeia gaulesa resistia às tropas romanas. Era notória a proximidade d’O Independente com aquele grupo em que se destacava uma certa burguesia social‑‑democrata que não se rendia aos «homens sem história» da nova ordem: José Miguel Júdice, Marcelo Rebelo de Sousa, António Pinto Leite, Santana Lopes, Durão Barroso…

Marcelo entende que Portas «nunca resolveu o seu problema com o PSD». Se é verdade hoje, ainda mais era nos anos 80, quando essas feridas ainda eram recentes: por um lado, com a frustração por uma experiência mal sucedida na JSD; por outro, com a consciência de que era no ataque aos seus antigos correligionários que Portas mais brilhava. «Ele ganhou o estatuto de estrelinha no ataque ao PSD. A especialidade dele era irritar os laranjinhas». Os laranjinhas também se punham a jeito."

(...)

"O escolhido para agitar as águas na distrital de Lisboa, e, a partir daí, no partido, acabou por ser António Pinto Leite, para satisfação de Portas. Era um dos «elementos mais sá‑carneiristas da nova geração», um Pinto que tinha pinta, um «hippie na política», que andava à boleia e já tinha dado a volta ao mundo. Era
um dos membros do grupo que Portas tinha descoberto no Semanário e, no fundo, um dos nomes em quem residiam esperanças de uma renovação no PSD. Nas páginas d’O Independente, Pinto Leite era «um caso de talento, não um caso de emprego», que tinha uma «função muito estranha no cavaquismo – fazia o papel
de minoria étnica». Era o homem que podia fazer mexer o cavaquismo, exigindo mais política e menos economia.

Pinto Leite dava o exemplo, fazendo política pura. O primeiro, mais importante e mais perdido desafio político de António Pinto Leite a Cavaco foi o lançamento da candidatura autárquica de Marcelo Rebelo de Sousa em Lisboa. «O regresso violento da política», chamou‑lhe Portas, vendo na candidatura de Marcelo um balão de ensaio para uma coligação à direita ou, pelo menos, para um reajustamento à direita das coordenadas do PSD.

(...)

A escolha de Marcelo como candidato à câmara da capital foi o desenlace de uma longa novela. A opção da distrital de Lisboa podia ser a pedrinha que, no limite, levasse ao descarrilamento do cavaquismo. «Admitamos que Marcelo vence as eleições em Lisboa. […] Nasce uma alternativa a Cavaco Silva dentro do seu próprio partido», vislumbrou Portas. Podia ser a antecâmara da emancipação do PSD: «O cavaquismo chegou ao país apesar de Marcelo. O marcelismo chegará a Lisboa apesar de Cavaco. […] É o único canto do país em que o chefe não manda completamente». O próprio Marcelo conta que Paulo «apostava» numa vitória sua, mas que isso «foi uma maluquice». Mesmo a candidatura, diz, «foi uma loucura. Nem sei bem porque é que aceitei aquilo»39. Mas aceitou. E ao longo da campanha a esperança num renascer do PSD a partir da ala direita e do génio do professor de Direito foi aumentando.
Na pressa de ver Cavaco pelas costas, Portas lia no resultado das eleições europeias de 1989 (32,7% para o PSD, muito longe da maioria absoluta das legislativas, dois anos antes) o sinal de que o «mito» do líder «estava perdido». Sonhava com um desmoronamento em curso: «os barões do partido levantaram a voz», «os ministros queriam uma remodelação dos seus colegas», «a candidatura de Marcelo a Lisboa era a última que o chefe desejava. O cerco apertava‑‑se.»

A entrada em cena de Jorge Sampaio como candidato do PS a Lisboa elevou a parada. «Quando o chefe da oposição prefere a batalha de Lisboa à guerra do País, isso significa alguma importância. Quando o rival do primeiro‑‑ministro faz de Lisboa um pronunciamento ao País, isso significa uma alternativa», escrevia Portas. E reiterava, com todas as letras: «Toda a gente sabe que Marcelo pode ser alternativa a Cavaco Silva no partido.»"

 

Em resumo: Marcelo era, por esses dias, o expoente da direita do PSD, esse partido então assim-a-modos-que-de-centro-esquerda. E era pela graça desse direitismo que a sua candidatura a Lisboa, em 1989, causava tanto entusiasmo ao jovem Paulo Portas.

O futuro, previsto por Portas n'O Independente, seria assim:

- nas autárquicas de 1989, Marcelo conquistava Lisboa (para desconsolo de Cavaco)

- nas legislativas de 1991, Cavaco perdia a maioria absoluta e, por ser Cavaco, recusaria governar em maioria relativa ou em coligação - e sairia de cena. Nesse cenário, Marcelo, com o palco dado por Lisboa, seria a escolha óbvia para liderar o PSD e para ir buscar ao CDS os apoios que lhe faltassem. E assim a direita teria, finalmente, um projeto de poder.

Era um bom plano, certo? Pois...

Mas a realidade não ajudou (e outros pormenores que poderão ler no livro também não) .

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