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O Independente A máquina de triturar políticos

A primeira campanha dele

Agora que Paulo Portas está de abalada e já circula pelas chancelarias desse mundo fora a recolher comendas e medalhas sobre os seus fatos de bom corte, recuperamos uma pequena pérola do velho Independente: a primeira crónica do Paulo-Portas-político, a dar conta das aventuras e desventuras dos seus primeiros dias em campanha eleitoral.

Talvez para o corte com a casa-mãe não ser tão doloroso, na semana em que o nome de Portas deixou de estar no cabeçalho do Indy, a sua prosa continuou nas páginas do jornal. A clássica coluna Antes Pelo Contrário, que tinha servido para o jornalista zurzir tudo o que era político e mexia, servia agora para o novo político piscar o olho aos eleitores, namorar apoios e confessar felicidades e infelicidades.

Por exemplo, isto: "Pouco a pouco, perco hábitos anarquistas e adquiro conveniências conservadoras. Resisti ao fato completo trinta e dois anos. (...) Lá comprei um fato. Confesso que foi caro e esclareço que é 'produto nacional'. E agora ando com uma gravata na pasta. Nesta matéria, já fui mais feliz".

Aqui fica a crónica na íntegra, que já vale como um documento histórico.

diariodecampanha.jpg

 

Marcelo: toda a verdade sobre a direita, a esquerda e a direita da direita e a esquerda da direita

Que Marcelo Rebelo de Sousa se apresente nos dias que correm como "a esquerda da direita", ou à esquerda da direita da esquerda, é lá com ele. Nós, como diria a personagem do Herman, é mais bolos: podemos não estar a par das coordenadas exatas do professor nos dias que correm, mas sabemos qualquer coisinha sobre onde ele estava no final dos anos 80 e início dos 90's, quando Marcelo era um dos gurus das tropelias d'O Independente.

Até escrevemos bastante sobre isso no livro "O Independente - A Máquina de Triturar Políticos". Sim, não é por acaso que o professor lá está na capa, com a sua impagável barbicha dos eighties. E uma coisa é certa, por mais voltas que Marcelo queira dar à sua biografia, nesses tempos em que Cavaco mandava no país com uma agenda que Paulo Portas rotulava, sem apelo nem agravo, como sendo de esquerda, Marcelo estava do outro lado.

No outro dia, o José Manuel Mestre, da SIC, bem tentou confrontar o candidato Marcelo com esse seu passado, mas o candidato sabe muito e desviou para canto. Ora, vejam:

 

 

Então vamos a factos. Entre outras coisas, escrevemos isto no capítulo "Os Laranjinhas":

"O diretor‑adjunto [d'O Independente Paulo Portas], que não gostava dos «laranjinhas», não desgostava dos «laranjinhas» todos por igual. Não escondia a simpatia pelos que haviam de ser rotulados, anos depois, como «sulistas, elitistas e liberais». Concentravam‑‑se na distrital de Lisboa, que resistia à hegemonia cavaquista como a aldeia gaulesa resistia às tropas romanas. Era notória a proximidade d’O Independente com aquele grupo em que se destacava uma certa burguesia social‑‑democrata que não se rendia aos «homens sem história» da nova ordem: José Miguel Júdice, Marcelo Rebelo de Sousa, António Pinto Leite, Santana Lopes, Durão Barroso…

Marcelo entende que Portas «nunca resolveu o seu problema com o PSD». Se é verdade hoje, ainda mais era nos anos 80, quando essas feridas ainda eram recentes: por um lado, com a frustração por uma experiência mal sucedida na JSD; por outro, com a consciência de que era no ataque aos seus antigos correligionários que Portas mais brilhava. «Ele ganhou o estatuto de estrelinha no ataque ao PSD. A especialidade dele era irritar os laranjinhas». Os laranjinhas também se punham a jeito."

(...)

"O escolhido para agitar as águas na distrital de Lisboa, e, a partir daí, no partido, acabou por ser António Pinto Leite, para satisfação de Portas. Era um dos «elementos mais sá‑carneiristas da nova geração», um Pinto que tinha pinta, um «hippie na política», que andava à boleia e já tinha dado a volta ao mundo. Era
um dos membros do grupo que Portas tinha descoberto no Semanário e, no fundo, um dos nomes em quem residiam esperanças de uma renovação no PSD. Nas páginas d’O Independente, Pinto Leite era «um caso de talento, não um caso de emprego», que tinha uma «função muito estranha no cavaquismo – fazia o papel
de minoria étnica». Era o homem que podia fazer mexer o cavaquismo, exigindo mais política e menos economia.

Pinto Leite dava o exemplo, fazendo política pura. O primeiro, mais importante e mais perdido desafio político de António Pinto Leite a Cavaco foi o lançamento da candidatura autárquica de Marcelo Rebelo de Sousa em Lisboa. «O regresso violento da política», chamou‑lhe Portas, vendo na candidatura de Marcelo um balão de ensaio para uma coligação à direita ou, pelo menos, para um reajustamento à direita das coordenadas do PSD.

(...)

A escolha de Marcelo como candidato à câmara da capital foi o desenlace de uma longa novela. A opção da distrital de Lisboa podia ser a pedrinha que, no limite, levasse ao descarrilamento do cavaquismo. «Admitamos que Marcelo vence as eleições em Lisboa. […] Nasce uma alternativa a Cavaco Silva dentro do seu próprio partido», vislumbrou Portas. Podia ser a antecâmara da emancipação do PSD: «O cavaquismo chegou ao país apesar de Marcelo. O marcelismo chegará a Lisboa apesar de Cavaco. […] É o único canto do país em que o chefe não manda completamente». O próprio Marcelo conta que Paulo «apostava» numa vitória sua, mas que isso «foi uma maluquice». Mesmo a candidatura, diz, «foi uma loucura. Nem sei bem porque é que aceitei aquilo»39. Mas aceitou. E ao longo da campanha a esperança num renascer do PSD a partir da ala direita e do génio do professor de Direito foi aumentando.
Na pressa de ver Cavaco pelas costas, Portas lia no resultado das eleições europeias de 1989 (32,7% para o PSD, muito longe da maioria absoluta das legislativas, dois anos antes) o sinal de que o «mito» do líder «estava perdido». Sonhava com um desmoronamento em curso: «os barões do partido levantaram a voz», «os ministros queriam uma remodelação dos seus colegas», «a candidatura de Marcelo a Lisboa era a última que o chefe desejava. O cerco apertava‑‑se.»

A entrada em cena de Jorge Sampaio como candidato do PS a Lisboa elevou a parada. «Quando o chefe da oposição prefere a batalha de Lisboa à guerra do País, isso significa alguma importância. Quando o rival do primeiro‑‑ministro faz de Lisboa um pronunciamento ao País, isso significa uma alternativa», escrevia Portas. E reiterava, com todas as letras: «Toda a gente sabe que Marcelo pode ser alternativa a Cavaco Silva no partido.»"

 

Em resumo: Marcelo era, por esses dias, o expoente da direita do PSD, esse partido então assim-a-modos-que-de-centro-esquerda. E era pela graça desse direitismo que a sua candidatura a Lisboa, em 1989, causava tanto entusiasmo ao jovem Paulo Portas.

O futuro, previsto por Portas n'O Independente, seria assim:

- nas autárquicas de 1989, Marcelo conquistava Lisboa (para desconsolo de Cavaco)

- nas legislativas de 1991, Cavaco perdia a maioria absoluta e, por ser Cavaco, recusaria governar em maioria relativa ou em coligação - e sairia de cena. Nesse cenário, Marcelo, com o palco dado por Lisboa, seria a escolha óbvia para liderar o PSD e para ir buscar ao CDS os apoios que lhe faltassem. E assim a direita teria, finalmente, um projeto de poder.

Era um bom plano, certo? Pois...

Mas a realidade não ajudou (e outros pormenores que poderão ler no livro também não) .

O candidato Marcelo cruza-se em campanha com o livro do Indy, onde o Marcelo-Velho-Rasputine é personagem e fonte

marcelo livro.jpg

A campanha do candidato Marcelo, já se sabe, é uma coisa em forma de assim onde tudo pode acontecer. Até uma visita a uma agência funerária seguida de uma visita a uma livraria em Portalegre (e daqui se celebra o facto de em Portalegre ainda haver livrarias de rua que não são das grandes cadeias livreiras). Sobre funerárias não temos nada a dizer, mas sobre livrarias temos uma certeza: quem entra numa por estes dias corre sempre o risco de se cruzar com "O Independente - A Máquina de Triturar Políticos". Assim foi com o candidato Marcelo lá em Portalegre.

Foi um momento único, aquele em que o Marcelo 2016 olhou para a capa do livro onde está o Marcelo de finais dos 80's, ainda com a sua pêra mefistofélica enfeitando-lhe o rosto. No interior do livro, há o antigo Marcelo-em-versão-Velho-Rasputine, de que já demos conta aqui, e também o atual Marcelo-fonte-e-comentador-de-acontecimentos.

O Marcelo 2016 fez questão de sublinhar que "não só li o livro como contribuí para o livro com testemunhos". E por momentos vestiu ainda mais um fato, o de crítico de livros, para garantir que este "é um livro engraçado".

Engraçado mesmo foi este momento, tão bem registado pelo José Carlos Carvalho, fotógrafo do Expresso: o meta-momento em que o Marcelo-candidato comenta o livro onde estão outras duas versões do mesmo Marcerlo. Em resumo, uma maravilha para apaixonados por semiótica.

Quanto ao mais, deu-se o caso dos jornalistas quererem saber como é que o atual Marcelo, que é "a esquerda da direita", convive com o velho Marcelo, que era a direita da direita do PSD. Voltaremos a esse assunto...

"Como uma libertação sexual": o Indy e a justiça (da entrevista na Rádio Renascença)

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O José Pedro Frazão, da Rádio Renascença, foi dos primeiros jornalistas a entrevistar-nos por causa de O Independente - A Máquina de Triturar Políticos. A entrevista passou logo no dia do lançamento, em novembro, e tínhamos memória de ter sido uma belíssima conversa sobre o livro, mas também sobre as marcas d'O Independente que ainda perduram no jornalismo e na política portuguesa. Também sobre a forma como, depois do Indy, mudou a relação entre o jornalismo e a justiça.

Pudémos agora confirmar essa boa memória, com a transcrição da entrevista, que a RR publicou na sua página. Aqui fica uma parte:

 

Há uma frase muito interessante no livro, com muita actualidade: "A Procuradoria-Geral da República foi central a alimentar o ‘Independente’”.

LV: Essa frase sai sobretudo por causa do caso Leonor Beleza, onde houve uma proximidade muito grande entre a justiça e o jornalismo. Muitas histórias nasceram da justiça. Paulo Portas tem uma frase que define essa relação "como uma libertação sexual: o jornalismo percebeu que se podia ir mais longe, os procuradores perceberam que se podia ir mais longe, os juízes também e os leitores ficaram a ganhar", diz Portas. Nasce aqui essa relação mais próxima que deu azo a muitas manchetes.

 

E aqui podem ler a entrevista na íntegra.

A pedido de várias famílias... o regresso da manta

Voltamos à incrível e alegre história da manta de João de Deus Pinheiro (salvo seja!). E fazemos a vontade a quem nos disse que do que gostava mesmo mesmo era de ler os textos originais d'O Independente sobre a mais famosa manta alguma vez desaparecida de um avião da TAP.

Então, aqui fica a primeira notícia, que abria a última página da edição de 26 de julho de 1991, com um dos melhores títulos de sempre da história do Indy:

El mantador I.jpg

E a reprise: na semana seguinte, outra vez na última página, o jornal voltava à carga, com outra notícia (não assinada) em que não só reafirmava tudo o que havia escrito como juntava alguns juicy details. Note-se, já agora, a magnífica foto-reportagem que surgia ao lado, sobre o casamento de Patrícia Cavaco Silva com Luís Montez ocorrido nessa semana.

El mantador II.jpg

E, por fim, o desmentido do próprio O Independente, incapaz de provar em tribunal aquilo que havia afirmado e reafirmado. Afinal, tudo não passara de um lamentável equívoco...

Indy_errou.jpg

(Para mais sobre este caso - sim, há muuuuuuito mais! -, ide às páginas de O Independente - A Máquina de Triturar Políticos)

Só para não dizerem que não vos damos música

Playlist.jpg

Esta semana, entre as 13h e as 14h, somos nós que escolhemos a música que passa na TSF. Isso mesmo: "A Playlist de" está por conta da dupla Lil&Fil até sexta-feira. Dividido por dois, deu uma dúzia de escolhas a cada um, o que nos fez sofrer para escolher as músicas que entravam e deixou de coração a sangrar com todas as que ficaram de fora. Negociámos trocas onde havia terreno comum - do género, "Liliana pões tu os The National",  "Filipe, os Radiohead ficam na tua lista" -, de forma a evitar repetições.

Por fim, a Liliana não dispensou este rapaz,

JackW.jpg

e o Filipe esta senhora.

Aldina.jpg

Nas escolhas da Liliana estão estes,

National.jpg

e nas do Filipe estes.

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E cada um fez questão de incluir uma destes, que são o único cromo repetido.

Blur.jpg

A playlist da Liliana é sobretudo rockalhada, o que faz sentido vindo de uma alentejana que nunca se deixa dormir na forma; a do Filipe é uma misturada, o que não espanta vindo de alguém que cresceu na loja de discos dos pais. O Filipe ainda não se perdoou por não ter incluído Stevie Wonder e um trio do Cosi Fan Tutte do Mozart; a Liliana ainda não se conformou por ter deixado de fora as outras músicas todas dos Blur, do Damon e dos Gorilaz.

Quanto a vocês, que são alheios a estes pequenos dramas e ligeiros exageros, desfrutem. Na TSF até sexta-feira, a partir das 13h, e com repetição diária à meia-noite. No sábado, há um compacto, depois das 14h. Ah!, e também há música do tempo do Indy.

O Indy, Cavaco, Taveira, jornalismo, política, coisas um bocado disparatadas e algumas revelações inesperadas

Este é um momento do Filipe a solo, mas apenas porque a Liliana estava doente e faltou a essa espécie de consagração que é ir ao programa do Fernando Alvim.

Entre muitas outras originalidades, o Alvim bate com o nosso livro violentamente contra a sua mesa, coisa que ainda nenhum entrevistador tinha feito e nos pareceu ter um efeito bastante relaxante - abrindo todo um novo filão de utilizações para as nossas 346 páginas. Por momentos tememos que o livro fosse utilizado para calçar um daqueles móveis que compõem o cenário, mas não se chegou a tanto.

Outra originalidade do Alvim é fazer combinações bastante improváveis de convidados - que, contra todas as expetativas, resultam. Foi o caso do encontro entre o Filipe e o DJ Kwan, ao ponto de perceberem que podiam ter tido vidas trocadas, o Kwan a escrever em jornais e o Filipe a dar música. E o Filipe faz revelações inesperadas sobre o seu passado no mundo da música (digamos assim...).

Alvim.jpg

Como qualquer programa que se preze, É A Vida Alvim tem duas partes. Pode ver aqui a primeira parte, e aqui a segunda. Como nas boas telenovelas, não é necessário ver tudo para perceber a história. Mas quem opte por não ver tudo fica avisado que perderá alguns vídeos que valem bastante a pena.

BFF: Marcelo e Paulo, uma história de amigos com ódios de perdição

Ninguém com coração consegue ficar indiferente à forma fofinha como o conceito de amizade tomou conta da política caseira. E não uma amizade qualquer, mas aquela amizade que é a melhor, a eterna, comprimida em três letrinhas apenas popularizadas há dias por Paulo Portas: BFF (para quem passou os últimos dias numa caverna e não sabe o que significam estas letrinhas, nós explicamos: Best Friends Forever. E até traduzimos: melhores amigos para sempre).

Portas, que já anda nisto há uns aninhos, tem uma longa lista de BFF na política. (Somos capazes de a elencar um dia destes.) Para já, aqui fica a referência óbvia aos BFF Paulo e Marcelo. Foi o ângulo pelo qual o DN pegou no nosso livro, conforme demos conta. Mas, perante o sucesso do conceito de BFF, e tendo em conta palavras recentes do professor-candidato sobre outro amigo, e tendo ainda em conta o apoio do partido de Paulo Portas ao candidato-professor, não resistimos a voltar a essa bonita história da relação entre Portas e Marcelo.

O assunto ocupa dez coloridas páginas de O Independente - A Máquina de Triturar Políticos, no capítulo Os Laranjinhas, para além de várias outras referências ao longo do livro. Aí pode encontrar manchetes como esta, do tempo em que Marcelo era a grande aposta de Paulo Portas para ocupar o lugar que então era ocupado por Cavaco Silva (não, ainda não era a Presidência da República, mas a liderança do PSD e do Governo)...

O ultimo a rir.jpg

...e também as exatas palavras de Portas quando, num telefonema para Alfredo Barroso, então chefe da Casa Civil da Presidência da República, percebeu que tinha sido enganado por Marcelo na famosa história da vichyssoise...

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No livro há mais sobre Marcelo. E mais BFF em geral.

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