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O Independente A máquina de triturar políticos

Coisinhas mesmo boas do passado (ou a demonstração da teoria do eterno retorno)

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Um leitor atento chamou-nos a atenção para este final de um dos capítulos do nosso livro, onde se fala de ajustes de contas e de bater com a porta na cara dos adversários. Na altura, o adversário assumido d'O Independente chamava-se Cavaco Silva. E o jovem Paulo Portas, então diretor-adjunto do jornal, receitava para Cavaco o mesmo tratamento que, muitos anos depois, o Paulo Portas líder partidário prescreve contra o seu adversário do momento, António Costa. Há coisas que não mudam. E receitas que (não) resultam sempre.

Não há duas sem três

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Aí está a terceira edição. Obrigado a todos os que têm contribuído para fazer de O Independente - A Máquina de Triturar Políticos um sucesso de vendas e de crítica.

Têm-nos perguntado se o bom desempenho do livro é a prova de que há muita gente com saudades d'O Independente. Sem querermos presumir as motivações alheias, parece-nos que não arriscaremos muito se dissermos que o sucesso do livro é, em boa medida, credor do sucesso do Indy. E acaba por ser uma homenagem a quem o fez, sobretudo nos tempos áureos sobre os quais o livro se dedica, quando coabitavam os nossos três protagonistas: Miguel Esteves Cardoso, Paulo Portas e Cavaco Silva. Há uma nostalgia d’O Independente e do que o jornal significou: a irreverência, o arrojo, o desafio, a capacidade de sacar grandes notícias e embrulhá-las bem, a qualidade dos textos, o impacto das primeiras páginas, os trocadilhos das manchetes, autênticos soundbites antes de sabermos o que era um soundbite.

O Indy era um jornal bem-humorado e mal comportado, como nunca voltou a haver outro. E com uma liberdade enorme, que usava sem pedir licença e, mesmo quando ia longe demais, sem pedir perdão. Talvez a nostalgia d’O Independente também seja a nostalgia dessa liberdade, sem medo de arriscar e de se espalhar ao comprido, e desses tempos em que tudo parecia possível. E, n’O Independente, tudo era mesmo possível.

O economista Aníbal e os economistas

No dia em que o Presidente Cavaco recebe em Belém "os economistas", vale a pena recordar o que O Independente escrevia nos anos 80 e 90 - sobretudo pela mão de Paulo Portas e Vasco Pulido Valente - sobre a capacidade técnica do economista Aníbal, que na época chefiava o Governo. Eis um excerto do que podem ler no nosso livro sobre esse tema candente:

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O ano em que o semanário de Miguel Esteves Cardoso nasceu deu razões para questionar o mito da capacidade técnica de Cavaco. A meta de inflação – um dos dados mais relevantes num país que, pouco antes, a via galopar acima de dois dígitos – devia ficar, nesse ano, pelos 6%. Uma previsão lançada com espalhafato, e gorada com estrondo: no verão, já era certo que a evolução dos preços não ficaria abaixo de 9%. Para Portas, era a demonstração da qualidade dos «técnicos» que governavam. «Se há coisa que um governo de técnicos não pode fazer é enganar‑se nas contas».

«Todo o mundo sabe: as virtudes do governo são as do contabilista, não são as do filósofo. Se o povo está satisfeito, é porque come, não é porque sonha. […] A legitimidade deste governo, em suma, nada tem a ver com a alma. O seu negócio são os números. O que todo o cidadão previdente espera do poder é o que lhe foi anunciado de modo concreto, preciso e verificável. […] Quem promete números tem de os cumprir. [...]»
(...)

Se o fim da década de 80 levantou dúvidas sobre a capacidade económica de Cavaco, o início dos 90 consolidou‑as. O político que gostava de discursar por algarismos começava a revelar «uma relação esquisita com os números. Quando gosta deles, é exibicionista. Quando não gosta, é censor. Quando pode, é manipulador».

(...)
«Na sua inocência, o leigo acredita que os governantes sabem governar e, sobretudo, que os economistas sabem economia», notava Vasco Pulido Valente. «Ora, os economistas sabem economia como os médicos dos princípios do século xix sabiam medicina. […] O dr. Cavaco, economista, prometeu do pináculo das suas luzes teóricas “desenvolver a Pátria”. […] [Mas] não trazia no bolso uma receita experimentada e segura para uma desordem específica. Trazia apenas a sua fé e algumas tinetas. […] Como os médicos do século XIX, o dr. Cavaco contava exclusivamente (Deus me perdoe) com a sua “maneira de cama”, ou seja, com a sua arte de animar o doente. Se o doente por si próprio se curasse, o mérito era dele. Se não se curasse, a culpa era dos “velhos do Restelo”, das “carpideiras”, das “forças de bloqueio”, dos jornalistas e da “situação internacional”, numa palavra, do ar.»

do capítulo O Homo Cavacus

Quer chamar mais nomes a Cavaco? Aprenda com quem sabe (parte 2)

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 Ah, e tal, o Cavaco isto, o Cavaco aquilo. Qual é a surpresa? Cavaco está hoje, como sempre esteve, a ser Cavaco. Ao fim de tanto tempo, para o bem ou para o mal, não há quem não o conheça. Mas poucos lhe tiraram a fotografia tantas vezes como O Independente. Raramente para escrever qualquer coisa de bom. Por isso, se por estes dias anda com uma vontade incontrolável de chamar nomes a Cavaco, este post é para si. Aqui fica mais um parágrafo do capítulo de O Independente - A Máquina de Triturar Políticos que é inteiramente dedicado ao "Homo Cavacus". Tal como o post anterior sobre o mesmo assunto, é uma colagem de coisas que o Indy escreveu sobre Cavaco - em boa parte dos casos, com a assinatura de Paulo Portas. E diz assim:

 

«O Altíssimo». Um «pequeno político com muita sorte», que «detesta a politica porque não a entende». «Um burocrata» que «detesta o conflito» e acumula poder «com uma avidez maníaca». «Um homem de esquerda », com «estilo justiceiro», «falta de escrúpulos» e cujo «discurso é o da moral mediana». A «negação da política». «Democrata porque tem de ser e autocrata quando o deixaram ser». Com «dias de imitação de ditador», «joga no unanimismo» e «interessa-lhe limitar a política ao seu próprio nome». No seu «despotismo pseudo-iluminado», «não se engana» e criou uma «democracia monocórdica», «maçadora e inútil». «Faltam-lhe as letras» e «nunca teve tempo para ser bom em português». Um «banal capitão eleitoral», que «não inventou nada e mudou pouco». «Uma criatura sem mistério de maior», que «parece saído de um livro de instrução primária». «Uma criatura pequena e calculista, que se agarra ao poder de qualquer maneira e cujo único objectivo consiste prosaicamente em sobreviver.» Uma «misteriosa cabecinha», uma «maquinal cabeça», uma «cabecinha orçamental». Com «uma vaidade ingénua e vertiginosa», «um monstro de hipocrisia» com «uma lata sem limites». «Dá náusea».

Do capítulo O Homo Cavacus

O "parolo" que manda nisto tudo

A Sábado fez na semana passada quatro páginas de pré-publicação de O Independente - A Máquina de Triturar Políticos. A escolha recaiu sobre os capítulos dedicados a Cavaco, à sua Maria e aos cavaquistas.

Calha mesmo bem, porque é Cavaco - o homem a quem o Indy dedicou todo o tipo de adjetivos, e quase todos desagradáveis - quem tem agora a decisão política que vai determinar o futuro da política portuguesa. Vale a pena ler o best of feito pela Sábado (clique na imagem para ver maior). E ler mais no livro.

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Da série Grandes Títulos do Indy (2)

Continuando o colecionável de grandes títulos d'O Independente, aqui fica mais um. É um daqueles que tem todas as marcas de um clássico, incluindo o facto de, quando menos se espera, ser atual outra vez. Agora, por exemplo.

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(Crónica de Paulo Portas, sobre sarilhos da direita em geral,

e Cavaco e Marcelo em particular - 3.11.89)

"Cavaco, se não é de esquerda, parece"

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 Sim, todos nos recordamos que, quando Paulo Portas era diretor d'O Independente, não gostava de Cavaco Silva nem um bocadinho. Este post abaixo dá uma ideia do quanto.

Mas a questão é: porquê? O que fez de Portas um dos mais ferozes e demolidores adversários do então primeiro-ministro? As razões são várias, e esta crónica, publicada logo numa das primeiras edições do Indy, elenca algumas: Cavaco "soube-me a pouco", escreve Portas. E revelou-se um político igual aos seus "colegas costumeiros", acrescenta.

Mas uma razão sobrepunha-se a todas as outras: Portas entendia que Cavaco não era de direita. "Se não é de esquerda, parece". Portas escreveu inúmeros textos n'O Independente a insistir nesse argumento. Este foi primeiro - e, com o tempo, iria bem mais longe nessa acusação.

(na imagem, o nosso documento de trabalho, devidamente riscado e anotado)

O Homem e a sua mulher - A cósmica surpresa dos mil gostos

Tal como prometido, aqui fica a cósmica revelação. No Facebook já somos mais de mil e por isso muito obrigada a todos.

Se Cavaco Silva era o alvo preferido d' O Independente, o modo como o jornal tratava o casal primo-ministerial mereceu a nossa atenção neste livro. Este é apenas um pormenor da atribulada vida do casal Cavaco Silva, que foi escrutinada ao pormenor. Ainda se lembram da história da marquise na casa da Travessa do Possolo? Também lá está contada.

"Pelo meio da alta e da baixa política, O Independente encontrava sempre o pormenor que revelava o homem (e a sua mulher)". "O retrato do casal Silva, tirado da redação da rua Actor Taborda, era a preto e branco: parolos de classe média, ele um rústico com estudos, ela uma dona de casa com pretensões, ele forreta e deslumbrado, ela possidónia e com manias de cultura".

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Do capítulo Aníbal e Maria, a PMI (Pequena e Média Intelectual)

Quer chamar nomes a Cavaco? Aprenda com quem sabe

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Vaidoso, vulgar, manipulador, demagogo, narcisista, cínico, estatista, burocrata, maníaco, altivo, autocrata, autoritário, despótico, carismático, egocêntrico, justiceiro, pseudo-iluminado, bimbo, banal, curto, limitado, paroquial, parolo, prepotente, medroso, sem brilho, sem dimensão, arrivista, reacionário, obtuso, confuso, cego, surdo, esquálido, interesseiro, inepto, simplista, oportunista, populista, mediano, salazarzinho de subúrbio, imitação barata, vingativo, tosco, arrogante, um bom hipócrita, pequeno, piroso, pusilânime. Assim era Cavaco Silva, na caraterização exuberante de O Independente. Ninguém foi mais descrito, analisado, noticiado, narrado e adjectivado pelo jornal do que ele.

 

do capítulo O Homo Cavacus

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